São José de Anchieta ✭1534 ♰1597
- Dr. Rodrigo Vasconcelos Martins

- há 2 dias
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Poucos de nós conhecem a verdadeira história do Brasil; poucos de nós conhecem Portugal além-mar. E, sim, ainda somos, em muitos aspectos, Portugal além-mar. Só quem se aprofunda e toma ciência e consciência da verdadeira história do Brasil, pré e pós-1500, é capaz de compreender que, mesmo separados politicamente desde 1822, Brasil e Portugal ainda são uma só nação e um só povo.
Nos dias de hoje, falta ao Brasil a retaguarda de sua existência, a qual somente Portugal pode conceder; e, a Portugal, falta o maior investimento feito pelo seu Império — investimento realizado por meio de recursos e do seu sangue lançado através do Oceano Atlântico, pela sua cultura e, talvez, pela maior dentre as riquezas produzidas pelos portugueses: a fundação do Brasil como nação, inicialmente parte do Império Global Português. Esse projeto continuou mesmo após a declaração de independência, decretada por um português, nosso primeiro imperador, D. Pedro I, juntamente com sua esposa, a imperatriz D. Leopoldina.
Entre os principais marcos da história do Brasil, desde a chegada de Pedro Álvares Cabral, em 1500 — cuja verdade podemos comprovar sempre que lemos a eterna carta de Pero Vaz de Caminha — houve grandes heróis e santos que atravessaram o mar e as florestas para salvar almas, dando início à forja da nação portuguesa nas terras que hoje conhecemos como Brasil. Esse processo se deu em nome de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Dentre os verdadeiros heróis da história do Brasil, São José de Anchieta ergue- se como as Colunas de Hércules do Brasil nascente. No limiar de um novo mundo, onde dois universos se encontravam — o mundo cristão europeu e o universo vasto, diverso e desconhecido das terras hoje chamadas Brasil — surgiu uma figura singular, tão monumental em sua missão quanto as lendárias Colunas de Hércules, que marcavam os confins do mundo antigo. José de Anchieta, padre jesuíta, foi à nascente pátria brasileira aquilo que as Colunas de Hércules foram para os navegadores renascentistas: um marco, uma ponte, um portal. Em uma era em que o oceano separava mundos, ele conectou culturas, línguas e espíritos com a mesma ousadia e coragem dos que ousaram atravessar o desconhecido.
José de Anchieta nasceu em 19 de março de 1534 em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha. Era o terceiro de dez filhos de uma família próspera — seu pai, Juan López de Anchieta, era de origem basca, e sua mãe, Mencía Díaz de Clavijo y Lharena, descendia de conquistadores espanhóis. Desde criança, José de Anchieta conviveu com diferentes culturas e línguas, o que contribuiu para sua facilidade em aprender idiomas — algo essencial para sua missão em nome da fé cristã.
Aos 14 anos, Anchieta foi enviado com seu irmão para Coimbra (Portugal) — então um dos principais centros de estudo da Europa — para continuar sua educação humanística no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Lá recebeu uma formação clássica extensa, estudando latim, filosofia, literatura e teologia, em um ambiente disciplinado no qual se falava latim como língua de instrução.
Esse período foi decisivo para moldar sua grande facilidade com idiomas e sua vocação intelectual, que o tornariam um dos mais importantes escritores e gramáticos da história do Brasil.
Aos 17 anos, em 1551, ainda em Coimbra, José de Anchieta ingressou na Companhia de Jesus (os jesuítas), a ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola. No início de 1553, já com cerca de 19 anos, fez seus primeiros votos como jesuíta e foi convocado para integrar a terceira missão jesuítica ao Brasil, embarcando de Lisboa em maio de 1553 como parte de um grupo de seis religiosos que acompanhava a frota comandada pelo governador-geral Dom Duarte da Costa.
José de Anchieta desembarcou em Salvador em 13 de julho de 1553, após a viagem marítima desde Portugal. Depois de algum tempo na Bahia, José de Anchieta, juntamente com outros jesuítas, seguiu para o sul da costa até a capitania de São Vicente — o atual estado de São Paulo — cujo local exato corresponde hoje à cidade de São Vicente, no litoral paulista, uma das mais antigas do Brasil. Foi também na Vila de São Vicente, em 22 de agosto de 1532, que ocorreu aquela que é considerada a primeira eleição no Brasil e em toda a América. Após a fundação da vila por Martim Afonso de Sousa, os moradores organizaram um processo para escolher os membros do conselho municipal da câmara — equivalente ao que hoje seriam vereadores ou administradores locais — chamado de “primeira eleição dos homens bons”.
Logo no início de sua missão, José de Anchieta aprendeu a língua tupi — a língua geral dos indígenas da costa da Terra de Santa Cruz (hoje Brasil) — de forma profunda, o que foi decisivo para sua atuação como catequista e mediador entre indígenas e portugueses. Esse estudo culminou na Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil, a primeira gramática tupi escrita por um europeu, publicada em 1595.
No início de 1554, José de Anchieta e os jesuítas fundaram um colégio no planalto de Piratininga, o Pátio do Colégio, que rapidamente se tornou um centro de catequese, educação e abrigo para indígenas e portugueses. Esse núcleo deu origem à cidade de São Paulo em 25 de janeiro de 1554.
Enquanto desempenhava sua missão de evangelização, Anchieta enfrentou momentos de conflito. Entre 1562 e 1564, durante a Confederação dos Tamoios
— uma aliança de tribos indígenas contra os portugueses e seus aliados — ele participou de uma ousada missão de paz com o padre Manuel da Nóbrega em Iperoig (atual Ubatuba, SP). Ali, José de Anchieta permaneceu com os indígenas como garantia de trégua, vivendo sob perigo constante, mas usando seu conhecimento da língua e de seus ensinamentos para estabilizar a situação. Após seu trabalho em São Paulo, Anchieta colaborou com a fundação definitiva do Rio de Janeiro em 1565, ajudando a consolidar a presença portuguesa no litoral e a levar a fé católica a diferentes povos. Ele também desenvolveu trabalhos missionários no Espírito Santo e em outras regiões costeiras, fundando aldeias e comunidades onde era possível a formação de novas comunidades cristãs.
Nomeado provincial (superior dos jesuítas) no Brasil em 1577, Anchieta continuou viajando, ensinando e catequizando até seus últimos anos. Faleceu em 9 de junho de 1597 na antiga vila de Reritiba (atual Anchieta, no Espírito Santo) e foi enterrado com grande reverência por indígenas e portugueses que tinham grande estima e respeito por José de Anchieta, “Apóstolo do Brasil”, tanto por seus feitos concretos quanto pelo impacto espiritual e cultural que deixou na formação do território.
Após sua morte, seu corpo foi levado por indígenas e portugueses até Vitória, onde foi sepultado solenemente na Igreja de São Tiago, ao lado de outro jesuíta, Gregório Serrão. Alguns anos depois, entre 1610 e 1611, os ossos de Anchieta foram removidos e levados para o Colégio dos Jesuítas em Salvador, Bahia, e parte também foi enviada a Roma, onde hoje repousam como relíquias.
Hoje, o Palácio Anchieta (antiga Igreja de São Tiago) em Vitória ainda guarda a memória do local onde ele foi sepultado pela primeira vez e é um marco histórico ligado à vida e à morte de São José de Anchieta.


