O Massacre de Anhatomirim: repressão e violência da República
- Prof. Renan Souza Cardenuto

- 26 de set. de 2025
- 4 min de leitura
A transição do Brasil do regime monárquico para o regime republicano, com o golpe militar de 15 de novembro de 1889, deu-se sem participação popular e foi marcada por instabilidade política e disputas de poder entre diferentes correntes dentro das elites. Uma das manifestações mais dramáticas dessas tensões foi a Revolta Federalista (1893–1895), que opôs federalistas e republicanos no sul do país. Dentro desse conflito, o massacre de Anhatomirim se destaca como um ato de repressão extrema por parte das forças leais ao governo republicano, então sob a presidência de Floriano Peixoto.
A Revolta Federalista teve como palco principal os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Ela foi motivada por disputas políticas entre os chamados "pica-paus" (republicanos, centralistas, vinculados a Floriano Peixoto) e os "maragatos" (federalistas, defensores de maior autonomia regional e, em muitos casos, simpatizantes do retorno da Monarquia ou de uma república parlamentarista). A Revolta teve início no Rio Grande do Sul, em 1893, como uma resposta à centralização do poder promovida por Floriano Peixoto, que recusava-se a convocar novas eleições, como previa a Constituição de 1891 em caso de vacância da presidência.
Santa Catarina, pela sua posição geográfica estratégica, tornou-se palco de importantes embates. A cidade de Desterro (atual Florianópolis) foi ocupada pelas forças federalistas no início de 1894, como parte de sua campanha rumo ao norte. Contudo, com a retomada da cidade pelos republicanos em abril do mesmo ano, iniciou-se uma violenta repressão contra todos aqueles que haviam colaborado, combatido ou simplesmente sido suspeitos de simpatia pelos maragatos.
Após a retomada de Desterro, o governo republicano passou a prender em massa todos os envolvidos, direta ou indiretamente, com os federalistas. Muitos foram levados à Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, localizada na ilha homônima, onde foram submetidos a julgamentos sumários ou, na maioria dos casos, executados sem qualquer formalidade legal.
Estima-se que entre 180 e 800 pessoas tenham sido fuziladas na fortaleza e arredores, entre abril e junho de 1894. Dentre os mortos estavam militares, civis, professores, jornalistas e até adolescentes — muitos sem qualquer envolvimento direto com o conflito. A prática de fuzilamentos coletivos, enterros em valas comuns e a ausência de registros oficiais detalhados colaboraram para o apagamento institucional do massacre por décadas.
Vale ressaltar a figura de Manuel de Almeida da Gama Lobo d'Eça, Barão de Batovi, que foi proeminente na história militar e política do Brasil imperial. Nascido em Desterro (atual Florianópolis), destacou-se por sua atuação nas guerras do sul, incluindo a Campanha contra Rosas, a luta contra Aguirre e, especialmente, na Guerra do Paraguai. Em reconhecimento aos seus serviços, foi agraciado com o título de Barão de Batovi com honras de grandeza em 28 de agosto de 1889. Durante o Império, também exerceu o cargo de presidente da província de Mato Grosso entre 1883 e 1884. Com a proclamação da República, Lobo d'Eça retornou a sua terra natal. Durante a Revolução Federalista, em 1893, presidiu uma reunião em Desterro na qual se decidiu pela capitulação frente aos navios da Armada revoltosa, visando preservar a cidade de um possível bombardeio. Essa decisão, embora tomada sob pressão e visando evitar maiores tragédias, foi interpretada pelo governo de Floriano Peixoto como um ato de traição. Em abril de 1894, sob ordens do coronel Antônio Moreira César, interventor federal em Santa Catarina, Lobo d'Eça foi preso e, juntamente com seu filho Alfredo, fuzilado na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim.
A morte do Barão de Batovi, um herói da Guerra do Paraguai e figura respeitada do Império, simboliza a brutalidade com que o novo regime republicano tratou seus opositores e antigos aliados, evidenciando as tensões e violências que marcaram a transição política no Brasil.
É importante destacar que o uso da força e da violência extrema foi uma marca do governo de Floriano Peixoto, conhecido como o "Marechal de Ferro". Em nome da consolidação da República e da defesa da ordem, o governo central autorizou ações que hoje seriam qualificadas como graves violações de direitos humanos. Anhatomirim tornou-se um símbolo desse autoritarismo republicano.
Durante grande parte do século XX, o massacre de Anhatomirim foi ignorado nos livros escolares, nos discursos oficiais e na historiografia dominante. Isso se deve em parte ao predomínio de uma narrativa republicana positivista que buscava enaltecer a figura de Floriano Peixoto como defensor da ordem e da unidade nacional. Os derrotados da Revolta Federalista foram estigmatizados como traidores ou desordeiros, o que dificultou a construção de uma memória alternativa ou crítica.
Somente nas últimas décadas, com a abertura para estudos históricos mais plurais e a valorização da história social, o massacre começou a ser revisitado por pesquisadores, jornalistas e movimentos sociais. A redemocratização do Brasil na segunda metade do século XX, especialmente após 1985, abriu caminho para a valorização das vozes silenciadas da história. Hoje, o Massacre de Anhatomirim é reconhecido como um crime de Estado e uma mancha na história da República.
A reinterpretação do episódio permite uma análise mais profunda sobre as origens autoritárias da República brasileira e a exclusão de parcelas significativas da população do processo político, até porque ainda há uma memória monárquica viva e renascente, mesmo com a repressão republicana ainda hoje.
O massacre de Anhatomirim é um episódio emblemático da violência política que marcou a gênese da República no Brasil. Longe de ser um evento isolado, ele revela a face repressiva de um regime que, em nome da modernização e da ordem, recorreu a métodos brutais para eliminar a dissidência. Relembrar e estudar esse massacre é fundamental não apenas para prestar homenagem às vítimas, mas também para compreender os mecanismos de poder, exclusão e silenciamento que ainda persistem em nossa sociedade.
A consolidação de uma memória crítica sobre Anhatomirim é um passo necessário na direção de uma compreensão do que foi e do que continua sendo a República no Brasil, sempre propensa à instabilidade política e econômica causando a cada dia maiores problemas no âmbito social do país, agravando ainda mais a porção mais frágil da população. Somente com a restauração monárquica, recuperando a nossa sociedade a sua consciência e a sua história, por meio dos valores cristãos e da família, é que finalmente o futuro brilhante virá ao nosso Brasil.



